Claude resolveu problema de física parado há 6 meses (e a conjectura de 12 anos de um Nobel)
Em duas semanas, "Claude resolveu problema de física" virou manchete duas vezes — e nas duas, quem assinou o crédito foi físico de elite, um deles Nobel. Não é o mesmo caso repetido. São dois problemas diferentes, dois grupos diferentes, dois países diferentes. E o mesmo padrão de uso.
No fim de junho, Giorgio Parisi (Nobel de Física de 2021) e Francesco Zamponi publicaram a prova de uma conjectura aberta desde 2014 — e disseram que a ideia central da prova veio do Claude. Duas semanas depois, Yuji Tachikawa, um dos físicos teóricos mais respeitados do mundo em teoria de cordas, relatou que o Claude Fable destravou um problema em que ele e os colaboradores estavam presos há seis meses.
Neste post você vai ver o que aconteceu em cada caso, o que os dois têm em comum e — a parte que interessa pra quem não trabalha com teoria de cordas — como esse padrão de uso se aplica a qualquer trabalho técnico, incluindo o seu código.
TL;DR
- O que é: dois relatos independentes, em duas semanas, de físicos de ponta usando Claude pra destravar pesquisa parada.
- Caso 1: Parisi (Nobel) e Zamponi provaram uma conjectura de jamming aberta desde 2014; prova publicada no Journal of Statistical Mechanics.
- Caso 2: Tachikawa relatou no X que o Fable 5 encontrou um erro de cálculo e "essencialmente resolveu" um problema parado há 6 meses.
- O padrão: intuição humana + força bruta do modelo + verificação obsessiva. Nenhum dos dois copiou resposta pronta.
O caso Parisi: a conjectura que somava 1 desde 2014
Jamming é o fenômeno em que sistemas desordenados — grãos, espumas, esferas comprimidas — passam de um estado fluido pra um estado rígido sem se organizar. Em 2014, Parisi, Zamponi e colaboradores desenvolveram a descrição teórica do fenômeno e esbarraram numa anomalia: dois parâmetros distintos da teoria, quando calculados numericamente, sempre somavam exatamente 1.
As simulações confirmavam a relação com precisão absurda. A prova formal, ninguém conseguia. Ficou em aberto por mais de dez anos.
Aí entra a parte interessante: o método. Segundo o phys.org, Parisi não pediu a prova de cara. Primeiro pediu pro Claude reproduzir os cálculos numéricos originais da década anterior — um teste de sanidade antes de confiar qualquer raciocínio ao modelo. Só depois de o Claude passar nesse teste é que veio o pedido da prova formal.
"Bem rápido, o Claude apresentou uma ideia inicial que era essencialmente correta", contou Zamponi. A prova inicial tinha erros. Foram várias rodadas de verificação e revisão entre os dois pesquisadores e o modelo até fechar uma prova rigorosa — publicada no Journal of Statistical Mechanics e coberta no Brasil pelo Correio Braziliense.
O detalhe que dói: a resposta era mais simples do que eles esperavam. O Claude redirecionou os autores pra um caso conceitualmente simples que eles tinham ignorado por anos. Nas palavras dos próprios pesquisadores, a resposta estava ali — eles só não estavam vendo.
O caso Tachikawa: 6 meses travado, uma noite de conversa
Yuji Tachikawa não é um nome qualquer. Professor no Kavli IPMU, na Universidade de Tóquio, ele é um dos físicos teóricos mais citados da sua geração em teoria quântica de campos e teoria de cordas.
Em julho, ele relatou no X que vinha testando o Claude Fable e, numa noite, "por impulso", mostrou ao modelo as anotações de um projeto colaborativo que estava sem progresso havia uns seis meses.
A sequência, segundo o relato dele e a cobertura do Digg:
- O Claude primeiro encontrou um erro de cálculo no material que o grupo vinha usando.
- Corrigido o erro, o modelo bateu no mesmo muro que os pesquisadores.
- Tachikawa apontou que o bloqueio continuava. O Claude então expandiu uma abordagem diferente — e, nas palavras do físico, fez "uma observação não trivial" que "essencialmente resolveu" o problema.
- Sem ninguém pedir, o modelo escreveu código SymPy pra verificar a própria previsão.
Esse último ponto é o que mais surpreendeu Tachikawa — e é o que mais deveria interessar a você. O modelo não entregou um argumento bonito e parou. Ele mesmo montou a verificação computacional do que tinha acabado de propor. Tachikawa resumiu dizendo que o Fable parece compreender teoria de cordas de verdade e ter algo parecido com intuição.
A ressalva honesta: isso é o relato de um pesquisador, não um paper revisado. O próprio Tachikawa disse que o resultado parecia promissor, mas ainda não estava totalmente assentado. Diferente do caso Parisi, que já virou publicação, esse ainda é um depoimento — de alguém, vale dizer, com reputação demais pra queimar num tweet.
Como Claude resolveu problema de física nos dois casos: o padrão
Se você parar na manchete, a leitura fácil é "IA resolveu física, físicos obsoletos". É exatamente a leitura errada. Olha o que os dois casos têm em comum:
1. O humano trouxe o problema certo. Parisi e Zamponi passaram uma década acumulando evidência numérica de que a conjectura era verdadeira. Tachikawa e os colaboradores passaram seis meses mapeando becos sem saída. O modelo não escolheu o problema — recebeu um problema maduro, formulado por quem entende do assunto.
2. Ninguém confiou de primeira. Parisi fez o modelo reproduzir cálculos conhecidos antes de pedir qualquer coisa nova. É o equivalente científico de rodar a suíte de testes antes de aceitar um refactor.
3. A primeira resposta estava errada — e tudo bem. A prova inicial do caso Parisi tinha erros. O primeiro ataque do Claude no problema de Tachikawa bateu no mesmo muro do grupo. Nos dois casos, o valor não estava na resposta pronta: estava na ideia essencialmente correta que o humano soube reconhecer e refinar.
4. Verificação em loop. Rodadas de revisão no caso Parisi. Código SymPy checando a própria previsão no caso Tachikawa. A resposta do modelo nunca foi o fim do processo — foi o começo de um ciclo de verificação.
Isso não é "IA substituiu o físico". É outra coisa, mais interessante: o físico virou revisor sênior de um colaborador incansável, que testa dez caminhos enquanto o humano testaria um, e que não tem apego emocional às abordagens que o grupo já tentou.
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Entrar no ClãO que isso muda pra quem escreve código
Você provavelmente não tem uma conjectura de jamming na sua fila. Mas tem o equivalente dela: aquele bug que ninguém do time resolve há meses, a migração travada, o gargalo de performance que todo mundo aprendeu a contornar em vez de atacar.
O padrão dos dois físicos traduz direto:
- Leve o problema maduro, com contexto. Tachikawa não colou uma pergunta solta — mostrou as anotações do projeto, incluindo os becos sem saída. Contexto do que já foi tentado vale mais que prompt engenhoso.
- Calibre a confiança antes de usar. Peça pro modelo reproduzir algo que você já sabe a resposta. Se ele erra o conhecido, não confie no desconhecido.
- Trate a primeira resposta como hipótese, não como solução. O ganho está em reconhecer a ideia certa no meio de uma resposta imperfeita — e isso exige que você domine o domínio.
- Feche o loop com verificação executável. O modelo escrever SymPy pra se auto-verificar é o mesmo movimento de exigir teste passando antes de aceitar código de agente.
Repare que nada disso funciona se a pessoa do outro lado não tiver repertório. Parisi reconheceu uma prova essencialmente correta no meio de erros porque é Parisi. O modelo amplifica quem sabe julgar — e expõe quem não sabe.
Limitações e pontos de atenção
Antes de sair anunciando a era da ciência automática, o que os dois casos não mostram:
- Não é autonomia. Nos dois relatos o modelo trabalhou dentro de um problema formulado, com feedback constante de especialistas. Zero evidência de que escolheria o problema certo sozinho.
- O caso Tachikawa ainda não é paper. É relato público de um pesquisador sério, mas sem revisão por pares. Pode encolher quando o resultado for formalizado.
- Sobrevivência de viés de seleção. Físicos publicam quando o modelo acerta. Os casos em que o Claude produziu prova convincente e errada não viram manchete — e é por isso que o loop de verificação não é opcional.
- Matemática formal ainda é terreno traiçoeiro. A prova do caso Parisi precisou de várias rodadas de correção humana. Quem não consegue auditar a resposta não deveria assinar embaixo dela.
FAQ rápido
O Claude provou o teorema sozinho? Não. No caso Parisi, o modelo forneceu a ideia central "essencialmente correta" e os pesquisadores construíram a prova rigorosa em cima, corrigindo erros em várias rodadas. A autoria intelectual do processo é dos humanos — eles mesmos fazem questão de dizer isso.
Qual modelo foi usado em cada caso? Tachikawa citou nominalmente o Claude Fable, o modelo da classe Mythos que a Anthropic liberou em junho. O paper de Parisi e Zamponi credita "Claude" sem detalhar a versão nos comunicados de imprensa.
Isso significa que IA vai substituir pesquisadores? Os dois casos sugerem o contrário: o valor do modelo dependeu inteiramente de especialistas que souberam formular o problema, detectar erros e verificar o resultado. Muda o como se pesquisa, não quem assina.
Onde leio as fontes primárias? A prova de Parisi e Zamponi está no Journal of Statistical Mechanics, com release no EurekAlert. O relato de Tachikawa está no X, com cobertura do Gizmodo sobre o caso Parisi.
O padrão não é sorte
Dois problemas travados. Dois grupos de elite. Duas semanas. O que se repete não é o "milagre" do modelo — é o método de quem usou: problema maduro, confiança calibrada, resposta tratada como hipótese, verificação executável no final.
Esse método não é exclusividade de físico. É a mesma disciplina que separa quem usa IA pra gerar código descartável de quem constrói software real com ela. E esse jeito de trabalhar — o modelo propõe, você verifica, o ciclo repete até fechar — é exatamente o que a gente pratica toda semana, ao vivo, no Clã Beer and Code: IA aplicada em código de produção, não em slide.
O detalhe irônico da história: tudo isso aconteceu semanas depois de o Fable 5 quase sumir do mapa por controle de exportação. O modelo que destravou seis meses de teoria de cordas passou junho bloqueado por decreto. Se a próxima conjectura de dez anos vai cair pra um modelo ou pra um decreto, ninguém sabe — mas o método dos que destravaram a última já está público. Usa.
{AI Engineer} — apaixonado por Laravel, arquitetura de software e construir produtos com impacto. Compartilho aqui tutoriais, descobertas e reflexões sobre o dia a dia de engenharia.
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